sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Aqui ninguém perde e as vítimas somos nós mesmos

Os promotores da polêmica do sexo consensual ou forçado no BBB acertaram. Nunca, desde a primeira edição, sintonizei na Globo durante o programa. E nem agora fiz isso. Mas confesso que na internet vou atrás das repercussões do suposto fato que pode não ter sido um fato. Apenas um acontecimento agendado.

A minha curiosidade é igual a de um bom número de brasileiros: quem é a vítima? O rapaz que foi expulso ou a moça quem diz e desdiz? Hoje, após ler matérias sobre a coletiva organizada pela dupla de advogados do expulso, quase estou chegando à conclusão que nem ele é vítima.

Os caras aproveitaram algumas manifestações de afrodescentes e vão usar provavelmente como gancho jurídico. Isso ficou evidente nas entrevistas: ele foi expulso por causa da cor. E vem à memória alguns clássicos do cinema americano baseados na vida real. O homem de cor que molesta a branquinha.

De qualquer forma, nem o expulso e muito menos a suposta vítima perdem. Ambos estão rendendo páginas nos impressos e menções na internet. Imagino que se não fosse pelos dois o BBB do Pedro Bial estaria lá embaixo no Ibope. E fico desconfiado de armação. Não teria havido um jeito para esquentar o ambiente?

Sites de variedades costumam ser nojentos de tanta baboseira. Eu, que tenho conta no hotmail obrigatoriamente sou conduzido para o MSN quando saio do webmail. Normalmente tranco tudo antes que a home do MSN ocupe o monitor. Ultimamente, só por causa desse epsódio tenho sido complacente: espero a página de retorno entrar para ver se há fatos novos.

Ainda bem que não tive, por enquanto, a vontade de sintonizar a Globo na hora do BBB. Pois se isso acontecer vou correndo consultar um terapeuta para ver o que está se modificando em mim. Tenho uma assinatura de TV a cabo. Merreca, daquelas que não trazem muita opção. Mas, em último caso, fico com os manjados seriados americanos de agentes do FBI contra bandidos perigosos. Pelo menos tenho certeza que estou me divertindo com mentiras que tentam me mostrar como verdades.

Oras! Estou pagando! Por que não posso apreciar as lindas investigadoras desses seriados? E descobri que o MSN não é de todo ruim. Fico sabendo lá o que a Griselda faz. Hoje tem receita de sorvete. Amanhã devo apreciar Tereza Cristina. Tudo isso é, no mínimo, muito interessante saber.

E quanto ao BBB? Bom, curioso por coisas fora da rotina, digitei no Google mulher velha. Apareceu Hebe Camargo, Marília Gabriela e Ana Maria Braga. E eu estava esperando páginas de sacanagem. Eu é que errei, o Google acertou. E Bial, a Globo e os patrocinadores comemoram mais uma subida na audência. Aqui ninguém perde! A mocinha que é vítima, o rapaz que é vítima vão, com certeza, ganhar muito mais do que nós que somos vítimas (texto de Walter Ogama).

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Pra nós a grávida de Taubaté não é culpada

Ok! Você é um repórter generalista e trabalha pautas de diferentes temas no seu cotidiano profissional. E de repente te mandam entrevistar a mulher grávida de quadrigêmeos que está pronta para ir ao trabalho de parto. A pauta informa que o caso é raro. Se o pauteiro é mais criterioso até relaciona casos que já renderam matérias. Sugere inclusive especialistas a serem ouvidos.

Não é bem assim que ocorreu na produção inicial da reportagem da pedagoga Maria Verônica Aparecida César Santos, de Taubaté. Algumas evidenciazinhas básicas foram desprezadas. A entrevistada alegou questões familiares e não forneceu o nome do profissional médico que a acompanha. O (a) jornalista, no mínimo, negociaria com a fonte: tudo bem, não vamos expor o seu médico, mas precisamos conversar com ele para ter informações do especialista sobre a sua gravidez e o trabalho de parto. Isso é fundamental na cobertura.

Outras evidenciazinhas são mais percebidas por mulheres e por homens que já são pais. Uma delas, os seios. Na gravidez antes mesmo da barriga os seios se avolumam. Em algumas mulheres de forma rápida e assustadora. Já vimos casos de mães que desconfiaram da gravidez das filhas porque os seios cresceram de um dia a outro. Os seios da pedagoga não parecem os de uma mulher grávida. São seios normais. Aliás, pequenos em relação ao aspecto físico que ela aparenta ter sem a barriga.

O formato da barriga também causa desconfiança. E nem no caso de uma gravidez simples, às vésperas do parto, ficariam tão retos. A mobilidade da mulher também impressiona. Já vimos gravidez que conservam até o porte físico e caminham com muita agilidade até na hora de serem colocadas no trabalho de parto. Olhando por trás algumas grávidas de nove meses continuam magras e elegantes. Mas com aquele barrigão a mobilidade estaria fatalmente comprometida, inclusive com conseqüências na coluna.

Essas evidências escapariam a um repórter homem? Pode ser, principalmente se ele fosse solteiro. Mas não poderiam escapar as informações cientifícas. Se o profissional que atende a grávida foi escondido, haveria pelo menos a curiosidade profissional do jornalista de ouvir outros profissionais da área. Havia motivos para isso. Se não houvesse curiosidade em relação às informações sobre os cuidados de um parto de quadrigêmeos, pelo menos restaria a vontade de saber mais e informar mais sobre o fato raro.


O problema é que a reportagem da Bandeirantes foi produzida por uma mulher. Tudo bem, novinha ainda, provavelmente ainda virgem quando o assunto é gravidez e parto. Mas, vamos lá, homem ou mulher, teria que haver uma apuração. Ouvir uma única fonte e de contraponto tomar depoimentos de "padrinhos" sobre o oba oba foi insuficiente.

Quantos casos de quadrigêmeos no Brasil, por exemplo. Mas a repórter encerrou a sua cobertura no mesmo ponto onde começou: o local combinado para as gravações das imagens e do depoimento da grávida. Foi, no mínimo, um sensacionalismo preguiçoso. E aqui a culpa não é da grávida de Taubaté. É de quem a ouviu e teve, inclusive, a oportunidade de apalpar a barriga dela, se quisesse. Corremos riscos nesta profissão. Portanto, o trabalho criterioso e aprofundado é fundamental no nosso cotidiano. Isso até em matérias que dariam supostamente em finais felizes, como o de uma mãe que vai ter quadrigêmeos.


Quanto à investigação da Record, a acusação da suposta grávida e de seu marido, de acordo com boletim policial, é de que um repórter estaria ameaçando a família de criar um caso através da mídia. Tomara que não seja isso. O trabalho investigativo, da forma profissional, é válido.    

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Notícias inexplicavelmente atrasadas no diário

O que houve na Redação da Folha de Londrina terça-feira? Pane no sistema? Aproveitamento de sobra de matérias de segunda-feira? Prefiro acreditar na primeira hipótese. Tempo passado por este jornal por um período de 18 anos, é claro que dedico atenção especial à publicação. Isso significa que involuntariamente a minha leitura é analítica. Confesso que preferiria ler como leitor, pois o rigor da análise às vezes torna qualquer avaliação ranzinza.

Longe de mim uma intenção dessas. É resultado de um apego, de um cuidado excessivo com aquilo que já fez parte da vida da gente. E ainda faz, pelo que se torna nítido por esta manifestação. Acontece que alguns importantes temas e outros não tanto que saíram na edição de terça do principal concorrente só ocupam as páginas da Folha nesta quarta.

Fica uma impressão esquisita. Alguém puxou as orelhas e mandou ir atrás do assunto? Só que com um dia de atraso nada de novo foi acrescentado. Por isso trabalhei também a hipótese de ser matéria de sobra reaproveitada sem um reajuste, uma atualização necessária ou, pelo menos, uma mudança de gancho.

Acreditam colegas da Folha! Este fórum não tem o objetivo de deitar porrete. As críticas são para sugerir melhoras. E isso vale também para o concorrente e até para o filhote do concorrente. Vale, enfim, para profissionais que como eu aspiram produzir com lisura e acerto, mas às vezes erram.

Eu, particularmente, com mais de 30 anos de jornalismo ainda cometo erros. Hoje atuando em assessoria de imprensa me pego diariamente com falhas que vão da digitação apressada, do aperto do teclado emperrado que não dá letra e desvio de conteúdo pelo uso de uma palavra inadequada.

E quanto ao risco de descaminho ético? Isso tortura. Às vezes rola-se na cama por horas até o meio da madrugada matutando sobre as possibilidades de termos caído. Estou com cinqüenta e cinco anos de idade. Tenho madrugadas de lençóis repuxados e não é por causa de algum tipo de prazer. É preocupação, medo, dúvidas.

Isso é para deixar claro que não há pegação no pé de ninguém. Porque quando deixarmos de estremecer por excesso de segurança ai sim a nossa vida profissional estará em risco (texto de Walter Ogama).

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Mais rigor para a concessão de rádio e tevê

O decreto está assinado pela presidente da República Dilma Rousseff. Se o que ele determina será cumprido é outra história. Aliás, a fiscalização por parte do ouvinte e do telespectador é que, de fato, validará o que manda o governo federal.

Estamos falando das novas regras para a concessão de canais de televisão e emissoras de rádio. Os pontos principais: mais conteúdo jornalístico, cultural e educativo, local e independente.
É verdade que estas regras valem para as novas concessões. As exigências são critérios que valem nas novas licitações de quem concorre a uma concessão de rádio ou tevê. Ainda assim resta a expectativa de um expurgamento no setor.

O próprio decreto governamental é claro: acabar com a picaretagem, inclusive na forma de laranjas que detém canais e emissoras de políticos. Mais do que isso: o decreto fala também em sanear o setor a partir da imposição de regras que só poderão ser cumpridas com profissionalismo.

No entendimento do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, hoje há um conjunto de emissoras em mãos de empresas e pessoas sem capacidade financeira de manter o negócio.

Pelas regras de antes do decreto quem ganha uma concessão paga a outorga em duas parcelas ao governo. Segundo o ministro, um grande número de concessionárias não pagou a segunda parcela e algumas nem a primeira recolheram.

Agora o candidato a uma emissora terá que comprovar capacidade financeira através de auditorias independentes e a outorga terá que ser paga à vista. O valor cobrado para participar do leilão de concessão também sobe. Se o político bancar um laranja para disputar uma concessão terá que ser um representante inclusive forte economicamente.

É provável que isso não feche todas as porteiras para a picaretagem no rádio e na televisão. Mas dicifulta. E se não houver, repetimos, a fiscalização do ouvinte e dos telespectadores, nenhum lei é capaz de segurar o mal intencionados. Depende, portanto, muito de nós.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Dá para folhear até a quarta ou quinta página...

Ler só dá preguiça quando não se tem o que ler. Isso é muito subjetivo. Tem gente que procura informações sobre o BBB do Pedro Bial para ler. Outros ficam atrás do dia a dia dos notáveis. Há quem prefira as novidades do futebol. Que absurdo! Numa manhã de segunda-feira as emissoras de rádio e os programas esportivos de televisão já disseram tudo! Mas, ainda assim, tem fanático do esporte que confere se o conteúdo da matéria impressa confere com o que os analistas disseram. Analistas? Em futebol todos somos.

Sem desaforos e provocações. Pé no chão, procuro por notícias que interessem o maior número de leitores. Coloco-me no lugar daquele que não é especialista em nada. Por isso precisa se inteirar de tudo o que está acontecendo. Alguns especialistas acham que precisam saber somente de sua área de especialidade. O resto é resto.

O caso do navio já vi na televisão. O Flamengo e o Corinthianas até encheu o saco de tanto se falar de um assunto meia boca. Eleições municipais em edição de começo de semana? Assunto esgotodado. Acidente de trabalho crescem 16%? Isso interessa, mas depende de como a pauta foi planejada.

Número de estudantes com contratos do Fies está abaixo da meta? Claro que interessa, desde que se escancare a realidade que mantém este número baixo. Será por acessibilidade? Ou algum outro tipo de trava? Código reduz participação popular? Também interessa. Diz respeito ao Código Ambiental de Londrina e pela chamada de capa é grave.

Vamos repicar o que diz: “Proposta da população levadas a audiências públicas para a construção do Código Ambiental de Londrina em 2011 foram excluídas na versão da lei sancionada pelo Executivo no começo do ano. Boa parte dos vetos elimina o aumento da participação e da influência da sociedade em decisões que envolvem o meio ambiente em Londrina. A educação ambiental também ficou reduzida”.

O outro jornal vem com a capa sobre o custo da reforma ministerial proposta pela Dilma: R$ 47 bi. Interessa sim. E o outro traz otimismo: PR é campeão em volume de emprego. Isso causa suspeita. O mesmo jornal, no dia anterior, encheu lingüiça mancheteando com a fraude em combustível. Com base na Agência Nacional do Petróleo, diz que a fraude caiu. Aonde?

Então, no sábado, a Gazeta traz: Após 11 anos, Paraná tem déficit comercial. De sábado a segunda-feira, pouco para se ler. Jornal de Londrina e Gazeta trouxeram reportagens mais chão, que cheira mais verdade e menos interesse por trás. O resto deu para folhear até a quarta ou a quinta páginas do primeiro caderno (texto de Walter Ogama).

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O mundo cão mostrado para cobrar o Estado

Em circunstância normal a cobertura da Folha de S.Paulo na Cracolândia poderia ser considerada exploração do mundo cão para atrair leitores. Na atual situação, dias depois da ação policial, podemos classificar o trabalho editorial como oportuno.

Junto às análises de diferentes segmentos sobre o problema, as equipes de reportagem do jornal estão levantando casos individuais. Na edição de quinta-feira, 12 de janeiro de 2012, cinco grávidas foram ouvidas: Lilian, 26 anos, usuária de drogas há quatro, que pode dar à luz a qualquer momento; Joyce, 19 anos, usuária de crack há sete, grávida de dois meses; Débora, 28 anos, usuária de crack há 16 anos, grávida de cinco meses; Sara, 27 anos, usuária de crack há 11 anos, grávida de cinco meses; Jéssica, 20 anos, grávida de seis meses.

A reportagem ouve também Natália, que diz ter largado a droga após o nascimento da segunda filha. A primeira morreu. Uma infografia mostra os efeitos do crack na gravidez. Informa que a droga que está na corrente sanguínea da mãe atinge a placenta e pelo cordão umbilical para a corrente sanguínea do feto. Em seguida atinge o sistema nervoso da criança com o risco de provocar alterações neurológicas. O crack também aumento o risco de aborto, diminui o crescimento fetal e há ainda o risco do bebê nascer prematuro. Após o parto, a criança sofre síndrome de abstinência à droga e apresenta sudorese, agitação, taquicardia, choro intenso e tremores.

O jornal também ouve comerciantes próximos da cracolândia e agentes de entidades e igrejas que desenvolviam trabalhos no local antes da ação da polícia.

Enfim. Ou, infelizmente. O que se mostra nessa cobertura é a parte do Brasil que está deteriorada porque as medidas de reparo tardaram. E quando chegaram foram de tal impacto que apenas tem efeito num local. Pode ser que a cracolândia esteja realmente com os dias contados. Mas o consumo da droga está aqui e ali, inclusive perto de casa.

Mostrar o mal entrando no mundo cão é, nesse caso, o escancaramento de uma podridão que existe por culpa única e exclusiva do Estado, esta instituição que abriga e acolhe – inclusive com salários altos - pessoas eleitas por nós, mas demora a dar soluções para os nossos problemas. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Retraído JL acerta e Folha cai no erro

Quatro jornais mostram as suas caras nas manchetes e nas chamadas de capa desta edição de quinta-feira, dia 12 de janeiro de 2012.

O normalmente equivocado Jornal de Londrina acerta esta quinta em sua manchete: “Crescem denúncias de violência doméstica”. Na linha fina: “A Lei Maria da Penha e campanhas contra a violência doméstica têm aumentado o número de denúncias feitas à polícia. Em 2011, houve crescimento de 69% nas comunicações desse tipo de crime à PM, que totalizaram 191 casos. Na Delegacia da Mulher, em 2011, foram instaurados 7776 inquéritos, crescimento de 31,75%”. Manchete acertada, porque tornar esse crescimento público encoraja pessoas que são vítimas ou conhecem casos de parentes ou vizinhos que são vítimas a quebrarem o silêncio.

A Gazeta do Povo abre a capa com “Gravidez na adolescência tem menor taxa desde 1994”. Devia ter aberto com a chamada em uma coluna que está logo abaixo: “Governo do estado quer comprar mais 4 aeronaves”. O texto da chamada diz: “Além do turboélice comprado pela Copel na terça-feira por R$ 16,9 milhões e que poderá ser usado pelo Executivo estadual, o governo do Paraná anunciou que pretende adquirir outras quatro aeronaves”. Comentário em uma emissora de rádio AM, a Cidade, da Rede Jovem Pan: “Nós, contribuintes paranaenses, vamos ser sócios de uma companhia aérea”.

O Estado de S.Paulo está conivente com os produtores de cana-de-açúcar: “BNDES oferece crédito de R$ 4 bi para baratear o etanol”. É a manchete. Como se isso dependesse de subsídio e sem analisar a questão ambiental. Os coronéis devem estar gargalhando...

A Folha de Londrina errou na capa. Usou como manchete: “Venda de automóveis cresce 3,7% no Paraná”. Parece matéria encomendada. E peca também na chamada seca de capa sobre a violência contra a mulher. O título diz: “Violência contra a mulher aumenta 70% em Londrina”. Não é bem isso. O que cresceu é o número de casos notificados à polícia. Na verdade, a matéria é que está viciada. Na PM uma fonte disse que o número de registros cresceu em função da Lei Maria da Penha. Na Delegacia da Mulher também informa à repórter que antes da Lei Maria da Penha as ocorrências registradas eram mais raras.

Claro, pauteiro e editor devem assumir a culpa desta falta de análise do assunto junto com o repórter. E o editor de capa, que é o filtro de toda matéria oferecida para ser chamada, merece advertência por deixar passar um equívoco editorial desse tamanho. Vejam que ele usa no chapéu da chamada as palavras “Maria da Penha” e escreve no título: “Violência contra a mulher aumenta 70% em Londrina”. Na ótica dele, o aumento da violência é por culpa dessa tal de Maria da Penha.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Entre a luz de vela e o fechamento industrial

Entre a luz de vela e o fechamento industrial

O saudosismo em nada ajuda quando o assunto é a agilização permitida pela tecnologia. Mas é de fundamental importância quando se cai nas conversas sobre a queda da qualidade do jornalismo impresso.

Capa recente da Gazeta do Povo para comemorar a edição de número 30.000 mostrou que a produção jornalística era praticamente informação e conteúdo de texto no passado. As fotos, principalmente de fora, eram raridades. Nas produções locais os fotógrafos tinham respeitar limite de horário. Caso contrário não dava tempo para revelar os negativos e fazer as ampliações.

Se hoje o grande risco do sistema industrial é o apagão causado por causas diversas, inclusive o consumo mais elevado de energia elétrica no calor, antes uma chuva mais prolongada era capaz de deixar as redações por horas sem luz.

Os jornalistas improvisam com velas acesas sobre as escrivaninhas encardidas. A iluminação era suficiente para os dedões acharem as letras nos teclados das velhas máquinas datilográficas. O texto era escrito em laudas que nem sempre chegavam às redações no mesmo formato. Dependia muito das sobras dos rolos de papel jornal.

Caso a luz não retornasse até às 22 horas, esperava-se até às 23. Ou meia noite, uma da madrugada, duas, três e mais, se necessário. A falta de janta era compensada com pão e mortadela. E havia sempre o jornalista que aproveitava até os últimos minutos para enriquecer o conteúdo do seu texto: revisando, acrescentando e até refazendo todo o material.

Nada era acessível. Tudo que se produzia exigia esforço. E saia coisa boa. A princípio teria que se supor que a facilidade seria uma importante aliada da qualidade. Pois o chumbo derretido foi encostado e o off set abreviou tempo e melhorou a impressão.

A cor era usada com zelo. Nada de exageros, a não ser em publicações específicas. As fotos, digitalizadas, reduziram gastos e tempo de processamento após serem produzidas. E veio a diagramação eletrônica, com vinhetas de todos os lados.

Na sequência os infográficos e outros exageros que mais prejudicam do que facilitam a leitura. E os texto, além de ficarem pequenos, na maioria dos casos nada dizem. Apenas completam as páginas. Mudou muita coisa no jornalismo impresso!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Tirando o BBB, sobra algum lucro cultural

Embora a cobertura sobre a adulteração das bombas de combustível tenha merecido destaque nas capas dos jornais paranaenses nesta terça-feira, dia 10 de janeiro de 2012, três outros assuntos com chamadas na primeira página se sobressaem.

Um deles pelo tom de galhofa por parte de autoridade que gerou a matéria. Está na manchete da Folha de Londrina com o título: “Desenvolvimento – Falta de infraestrutura afasta indústrias do Norte, diz Beto Richa”.

O desaforamento da fonte continua na linha fina: “Governador anunciou ontem, em Ponta Grossa, que Paraná receberá R$ 9 bilhões em investimentos privados a médio prazo. No entanto, nenhum centavo será investido na Região Norte. Segundo ele, as indústrias ‘naturalmente’ optam pela Região Metropolitana de Curitiba e pelos Campos Gerais porqaue precisam de rodovias e mão de obra qualificada”. É de chorar de vergonha. 

Isso demonstra que até na ótica do Estado o resto do Paraná é interior.  Deixamos claro que a posição é do governador e o texto da Folha apenas trabalha o que a autoridade disse. Ainda assim, cabe posteriormente as redações pensarem numa pauta para mostrar não somente ao governador, mas principalmente a toda a população paranaense, as causas dessas diferenças, a falta de rodovias e de mão de obra qualificada. Quem é cidadão consciente sabe, mas é bom reforçar isso quando se percebe que há quem deveria saber e desconhece.

Outro assunto de destaque é também da Folha de Londrina. Está na página 3, de Política, com o título: “Parlamentares do PR gastaram mais de R$ 8 milhões em 2011”. Na linha fina: “Despesas pagas pela Câmara Federal e pelo Senado são relativas à atividade parlamentar; Assis do Couto é o ‘campeão’ de gastos”.

Trata do chamado “Cotão”, que o infográfico explica: “A Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap), que ficou conhecida como ‘Cotão’, foi estabelecida na Câmara Federal a partir de ato da Mesa número 43, de 21 de maio de 2009. O limite do valor a ser gasto varia conforme o Estado. Ao Paraná, coube o valor de R$ 29.154,13 para cada deputado federal”.

De acordo com o levantamento da Folha, o paranaense mais gastador é Assis do Couto, petista, que consumiu em 2011 R$ 337.913,80. Londrina, o interior, tem um gastador: Alex Canziani, do PTB, consumiu em 2011 R$ 307.580,44. André Vargas, outro de Londrina, que a capital chama de interior, está entre os que menos gastaram: o petista consumiu R$ 236.964,84.

Entre as despesas que o Cotão cobre estão aluguel de imóvel para escritório parlamentar, taxa de condomínio, tarifas de água e energia, TV a cabo, vigilância, material de consumo, locação de transporte, combustível, hospedagem e refeição para o parlamentar e comissionados, além de contratação de consultorias, informa infográfico produzido pela Folha.

Esse tipo de produção interessa muito, porque ficamos sabendo como é gasto o dinheiro do contribuinte brasileiro. A gente praticamente banca tudo para os nossos representantes. Assim a Folha se redime por um final de semana fraco. Mas também não precisava exagerar publicando matéria de uma página sobre o BBB 12.

Na Gazeta do Povo, a matéria destaque sai na página 13, de Vida Pública. O título é: “Controle governamental – 10% das cidades descumprem a Lei Estadual da Transparência”. Na linha fina: “Pelo menos 40 municípios do Paraná ainda não divulgam gastos em diário oficial, o que é obrigatório desde o dia 1º”. Bom também...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

É hora de investir nos novos jornalistas

Triste e constrangido. Por ser do Norte do Paraná e não poder negar certo bairrismo inclusive em relação ao nosso jornalismo em comparação com o que sempre se praticou em Curitiba. Dizíamos quando estudantes e focos, nos primeiros anos do exercício profissional, que o jornalismo do Sul era chapa branca. E se não havia fundamento nessa acusação sobravam indícios e, consequentemente, suspeitas.

Íamos além. Dizíamos que todo jornalista de redação, na Capital, acumulava também um emprego de assessor de imprensa em órgão público. Pudera! Qualquer jornalista que começava na Folha de Londrina e ganhava cancha era muito bem recebido em mercados muito mais promissores, como o de São Paulo.

Mudou alguma coisa? Felizmente para o Paraná como um todo. Infelizmente para o Norte do Paraná. O jornalismo pé vermelho está em crise há alguns anos, mas parece chegar ao fundo do poço. O de lá, por um interessa ou outro, evoluiu. Sabemos que os avanços no Sul não foram promovidos de graça. Houve algum desvio de percurso, algum jogo cujo placar foi forçosamente alterado. Ou, quem sabe, adulterado.

Mas acontece que o jornalismo de lá está mais jornalismo do que o de cá, embora se reconhece o esforço da redação da Folha de Londrina para fazer do produto um jornal. É uma equipe de profissionais novos e sem a presença de gente experiente. Tenta-se o melhor, mas nem sempre os resultados aparecem.

De sábado até esta segunda-feira, dia 9 de janeiro de 2012, a Gazeta do Povo humilhou a concorrência nas três edições. Na edição de sábado, 7 de janeiro, o impresso curitibano trouxe na página 13, Vida Pública, uma reportagem sobre os supersalários no Congresso Nacional. Tem funcionário público que recebe R$ 26,7 mil por mês. O teor da matéria é de questionamento, cobrança e, enfim, denúncia de uma situação vergonhosa.

Na edição de domingo, a reportagem de destaque está na página 4, Vida e Cidadania. Com o título “Qualidade de vida – Indicadores sociais na contramão do crescimento econômico”, a matéria assinada por Anderson Gonçalves traça um paralelo entre a recente comemoração brasileira por ter se posicionada em pesquisa como a sexta economia do mundo, diante de uma sociedade cuja população tem muito a cobrar do Estado em qualidade de educação, saúde, habitação, trabalho e muito mais.

Na edição desta segunda-feira, duas reportagens são destaque: na página 19, de Economia, a matéria que dá manchete de capa da edição, cujo mote é: “Legislação – Parlamentares desconhecem regras de relação de consumo, mostra levantamento”. O título diz: “Nove em cada dez projetos de lei são inúteis para o consumidor”. A outra reportagem repercute levantamento da Paraná Pesquisas sobre eleições municipais. O título, na página 13, Vida Pública: “Saúde e segurança são os grandes problemas no interior do PR”.

Enquanto isso, no jornal do mesmo grupo que só circula em Londrina, cada jornalista faz a matéria que é de seu interesse. Quanto à Folha de Londrina, a empresa vai ter que ajudar os seus novos profissionais a ganharem tarimba. Está na hora de investir em qualidade, senhores! Vale à pena colocar dinheiro na formação desse moçada que é jovem, mas talentosa.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Um lance inspirado na capa da Gazeta do Povo

A Gazeta do Povo comemora a edição de número 30.000 com estilo. Diagramação, textos, títulos, fontes e demais recursos gráficos e editoriais da capa são inspirados na primeira edição do jornal, que circulou em 3 de fevereiro de 1919. É uma capa sem fotos. Uma única chamada é ilustrada. A cor também é dispensada.

Um texto publicado na edição de número 1 é reproduzido: “Não temos, pois, que attender a melindres pessoaes; não temos que attender a interesses particulares; o facto, uma vez que interessa à collectividade, é um dado positivo de sua vida; deve ser conhecido, divulgado, analysado, commentado, para que delle se possa retirar as utilidades que for capaz de produzir.”

Bonito! Muito bonito! E nem se questiona aqui se assim foi. Abrindo a Gazeta o leitor se depara, na cabeça de cada página, também com a arte gráfica e o conteúdo similar ao do passado do jornal. São textos analíticos, a maioria tratando da participação do jornalismo da Gazeta em fatos marcantes, reportagens sobre bolsões de pobreza e, enfim, o relato da situação atual.

Serve para confirmarmos que o jornalismo impresso do passado era texto. Também para mostrar que, atualmente, os recursos gráficos utilizados aos exageros e as cores mal usadas mais atrapalham do que facilitam a leitura. O jornalismo impresso de antes era a força da informação e da opinião datilografadas, se preciso à luz de vela quando as redações ficavam no escuro por falta de energia elétrica.

E havia muito texto com informações em cada linha. Sem nariz de cera, porque os editores eram rigorosos. Sem desenhos aqui e aqui com números. Sem fotos despropositais. Havia preocupação com o texto.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ética e moral dependem da formação do ser

Os preços dos hortifrutigranjeiros estão lá em cima. Nas feiras livres os comerciantes fazem o que podem para vender: laranja de anteontem dá um bom suco e pode ser vendido mais barato. Tomate para refogar custa a metade do que está em ponto de salada. E nem as galinhas perdoam: o ovo está salgado. Nada, nada mesmo, tem preço de banana.

A pauta manda uma equipe à feira para ouvir consumidores e vendedores. A matéria deverá ser complementada com especialistas, inclusive do Departamento de Economia Rural da Secretaria de Agricultura, regionais da Emater, produtores de hortifruti e centrais de abastecimento como Ceasa.

O objetivo jornalístico é de publicar no dia seguinte uma matéria fechada sobre um problema que, a princípio, afeta toda a cadeia produtiva e chega na ponta final, que é a mesa de quem consome. É preciso descobrir os gargalos e chegar às causas: clima, interrmediários, política agrícola inadequada para o setor, maldade de alguma parte, despreocupação de outra?

Repórter e fotógrafo trabalham nas entrevistas quando um feirante insinua aos dois: “Vocês não tem nada o que fazer? Porque não vão trabalhar? Aqui todo mundo trabalha...” Entre retrucar com deselegância e dizer o óbvio a quem já demonstrou que não entende nada, a equipe de jornalismo decide se afastar do local.

Este fato é verídico e já foi contado em crônicas anteriores. Mas faço uso deste relato para pontuar as injustiças que podem ser cometidas contra bons profissionais do jornalismo por algumas pessoas.

Após 25 anos trabalhando em redação, atuo hoje como assessor de comunicação de órgão público e experimento, consequentemente, as pontadas dos espinhos que espetam de ambos os lados. Sofro discriminação com frequência pelo fato de estar do outro lado. Na maioria das vezes, o preconceito é velado, mas se percebe claramente. E também na maioria das vezes nem te dão o direito de esclarecer que o trabalho desenvolvido como assessor é ético.

Ainda assim saio agora em defesa do pessoal das redações. Testemunhei recentemente um fato de causar indignação. O poder público, que é o patrão na pessoa de prefeitos, secretários municipais ou estaduais, governadores e tantos outros políticos, entre os quais assessores políticos – e não de imprensa, gostam de matéria positivistas. E quando a pauta é sobre buracos de rua, matagal na área urbana, fila nas unidades de saúde ou falta de vagas nas escolas, o poder público avalia que o jornal está pegando no pé por um motivo ou outro.

É mais ou menos assim: “Aquele político da oposição deve ter um amiguinho dentro do jornal”. Criei caso justamente por causa desse tipo de baixaria. E fiz isso sem checar se realmente há uma relação que extrapola aquela que é suprema, de jornalista com a sua fonte. Criei caso porque não admito, embora saiba que alguns profissionais pecam, que se duvide da integridade moral e ética de um jornalista.

Admito, porém, que esse conceito equivocado e injusto vigora por uma causa que é real. Como em qualquer outra profissão do mundo, também no jornalismo temos carniceiros. E infelizmente são muitos. Talvez mais grave ainda que isso seja a discriminação da própria categoria contra quem trabalha em assessoria. Eu, como assessor, no canto mais iluminado da minha sala de trabalho e sem alardes saio em defesa dos colegas de redação. Porque acredito que ética e moral não dependem do local de trabalho.

Texto de Walter Ogama

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Jornais e jornaleiros de agora e do passado

Os gritos dos jornaleiros nas ruas de Londrina anunciando as eventuais edições extras eram tão fortes quanto a expressividade do que o jornal trazia em suas páginas. Da mesma forma, alguns desses jornaleiros aproveitavam as manchetes das tiragens normais para atrair a atenção dos leitores.

Ironia! Isso significa que alguns vendedores de jornais do passado sabiam muito mais de manchetes do que determinados editores de hoje em dia. E não adiante entrar com outra tese, do tipo: é que ninguém mais se interessa por jornal impresso. Isso é desculpa esfarrapada. A verdade é que ninguém compra jornal sem conteúdo.

Lembramos que neste dia 4 de janeiro o jornal O Estado de S.Paulo comemora aniversário de fundação. Mas não é do jornal propriamente dito que queremos nos manifestar, embora algumas informações básicas sejam indispensáveis.

Por exemplo: quando fundado, em 1875, o Estadão chamava-se A Província de São Paulo. Seus proprietários eram republicanos e, portanto, a cara do jornal era republicana. Já o que interessa para o nosso contexto: foi o pioneiro em vendas avulsas.

Informações socializadas pelo próprio jornal em sites da internet contam que um imigrante francês chamado Bernard Gregoire saia às ruas montado num cavalo. Para chamar a atenção das pessoas sobre o produto que estava vendendo, o cavaleiro tocava uma corneta.

Em Londrina, os jornaleiros também fizeram sua história. Quando a pressão do fechamento das edições diárias era menor e as redações tinham mais tempo para priorizar o conteúdo, eram eles, os jornaleiros, que na porta do jornal tentavam apressar os jornalistas. A pressa não era pela necessidade de voltar cedo para casa. Os jornaleiros queriam ser os primeiros a encontrar pelas ruas os leitores afoitos por notícias.

A oficina da Folha de Londrina, por exemplo, funcionava no subsolo da redação. A porta principal da redação, na Rua Piauí, era o local onde os jornaleiros se concentravam para esperar o produto ainda quente, saído do forno que era o parque gráfico. Era comum, em dias de atraso, alguns jornaleiros mais conhecido telefonarem da recepção à redação para perguntar o motivo da demora.

Esse trabalhador, agora tão raro, comemora sua data em 30 de setembro. Ás vezes eles fazem hoje em dia estripulias nas tardes de sábado tentando vender exemplares nos semáforos. Mas, infelizmente, nem estímulo para isso os jornaleiros têm. Porque eles próprios já sabem que estão vendendo um jornal grosso de muitos cadernos de classificados. O restinho é de matérias frias. Algumas delas tanto faz ler ou passar por cima.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Algumas manchetes de capa desta terça

Na Folha de Londrina a manchete da edição de 27 de dezembro é: “Verba de gabinete – Câmara admite falha, mas insiste em reajuste”. Diz respeito à reportagem publicada pelo jornal no dia anterior, sobre “carona do legislativo londrinense em projeto de lei do executivo para aumentar salário dos comissionados”.

Chamada com foto é sobre o saldo trágico das rodovias no período de festas: entre sexta e domingo foram 24 mortes em 397 acidentes. Chamada seca é sobre pesquisador que usa plantas para repelir Aedes aegypti. São os três assuntos de capa que mais chamam a atenção e estão diagramados na primeira dobra.

A Gazeta do Povo traz na manchete um assunto interessante a todo o contribuinte, mas de uma maneira que dispersa, afasta o abrir das páginas. A vinheta acima do título é: “Dinheiro público – número de cidades vistoriadas cai de 180 para 120 neste ano”. O título da manchete: “CGU diminui fiscalização de gastos dos municípios”. O uso de siglas é sempre arriscado. O que é CGU? Alguém correria os olhos até o texto abaixo do título para saber do que se trata? Difícil. Para evitar o uso da sigla o título poderia ser puxado pelo fato: menos municípios têm os gastos fiscalizados. Ao lado, em uma coluna, um pouco mais de interesse na chamada “Radares não precisam ser sinalizados, diz Contran”.

O Jornal de Londrina abre a capa com a manchete: “Sucessão municipal – Os cenários da disputa eleitoral”. É chamada fria, o tema poderia ser trabalhado com mais impacto. É uma frase sem verbo e só quem sabe impactar consegue fazer um bom título dessa forma.

A Folha de São Paulo abre a capa com um tema local: “Homicídio cai e roubo de veículos sobe em SP”. O resto da capa é o retrato de uma edição fraca, com predominância paulista. Pouco para quem pretende ser um grande jornal de circulação nacional.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Natal, o Ano Novo e os meios de comunicação

Nem sempre a boa notícia é o espetáculo natalino com público recorde num canto qualquer da cidade. Um antigo chefe de redação de Londrina costumava dizer que as edições do Natal e do Ano Novo devem ser para cima, sem a publicação de acontecimentos ruins.

Mas as notícias são geradas de fatos. E fatos não escolhem datas: Natal, Ano Novo, carnaval, Dia das Crianças, Páscoa. É tudo igual. Um novo escândalo pode ser descoberto em qualquer dia. Um acidente nunca é adiado. Um incêndio mata pessoas e desabriga famílias às vésperas do dia do nascimento do menino Jesus e tem que sair nos jornais.

Não fosse por isso produziria-se uma revista com temas mornos: como preparar a ceia; qual é o melhor tipo de carne para o almoço; vinho branco é bom para ensopar peru; onde encontrar frutas da época; beterraba é recomendável ou não e assim por diante.

Mas jornal de notícias não é um presente trazido pelo Papai Noel. Embora ele mereça algumas reportagens, nem por isso o bom velhinho usa a máscara da vaidade para ser notícia. Desses que merecem espaço nos jornais alguns são por merecimento por serem voluntários que escondem a cara com a barba e saem presentear necessitados.

Jornal, no Natal ou no Ano Novo, é uma leitura obrigatória. Matérias de serviços sobre cuidados nas viagens, na bebida e na alimentação, por mais que sejam repetitivas, sempre interessam a alguns. Notícias de acidentes no trânsito, queiram ou não, ajudam a conscientizar alguns motoristas mais abusados.

E por incrível que pareça, certas tragédias são mais freqüentes nos períodos de festas, principalmente nas estradas. São mais famílias viajando e consequentemente mais negligência nas rodovias.

É claro. Noticiar por noticiar chega a ser em vão. Mas noticiar por ser papel do jornalismo dar conta aos leitores do que acontece na sociedade é obrigação. Então aquele antigo chefe de redação nunca teve razão.

Variedades é produto de revista específica para isso. Jornal existe para noticiar tudo o que merece ser noticiado.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Medida de exceção é medo e insegurança

A Argentina de Cristina Kirchner é a volta a um passado de desmandos em relação aos meios de comunicação do país que são críticos ao governo. Reeleita recentemente, Cristina e seus aliados deram mostras de pouco se importarem com as formas de ação contra os opositores desde antes da campanha eleitoral.

Assim, a disputa pela presidência da Argentina foi em clima de reunião de bar de esquina. De um lado se alinharam os veículos de comunicação pró-candidata. Nem todos estiveram com Cristina por opção política. Aliás, a maioria gozou dos benefícios financeiros da candidatura e também do governo. Do outro lado, os jornais com linhas editoriais mais éticas penaram não só com os cortes de anúncios mas também com boicotes.

O Grupo Clarin, que entre 2003 e 2007 esteve com o governo de Nestor Kirchner, debandou a partir de 2008 ao defender os produtores rurais argentinos contra a alta dos impostos de importação. Em setembro de 2009 a Receita Federal Argentina faz uma devassa nas contas do grupo e invade até a casa dos seus diretores e alguns funcionários.

Em março de 2011 manifestantes bloqueiam a porta da gráfica do jornal e atrasam a circulação por 12 horas. O Clarin protesta lançando edição com a capa em branco. Agora recentemente, o governo argentino tornou a única fábrica de papel-jornal do país de interesse público. O Clarin é detentor de 49% das ações desta indústria e corre o risco de perder a sua participação no empreendimento. O interesse público, aliás, já foi aprovado pela Câmara dos Deputados da Argentina.

Ontem, dia 20 de dezembro, a sede da empresa que faz parte do grupo, fornecedora de tevê a cabo, foi ocupada por cerca de três horas por policiais. A invasão foi autorizada por um juiz de uma cidade onde o grupo não mantém unidades.

Invasões e atentados aos jornais já fizeram parte da história da América Latina em um passado recente de amarga lembrança. Somos obrigados a admitir que atualmente, não só lá quanto aqui, a censura é mantida por meio dos anúncios publicitários. Antes, instrumentos como o Ato Institucional nº 5 é que deixavam as páginas em branco.

A ocupação de um veículo de comunicação na Argentina é, portanto, recurso de quem não tem o controle do poder e quem continuar no trono a qualquer preço. Infelizmente, o argentino, normalmente aguerrido, está calado assistindo aos acontecimentos.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Os jornais e as receitas para a ceia de Natal

Os jornais são conselheiros. Trazem nesta época do ano muitas receitas para a ceia de Natal e as festas da virada do ano. Tudo de acordo com o espírito natalino, este ser invisível que às vezes se veste de vermelho para lembrar a grande campanha da Coca Cola em 1931 nos Estados Unidos, visando tirar as vendas dos refrigerantes do sufoco.

Vamos providenciar uma farofa à brasileira. Quem sabe o Papai Noel goste. Ele, que é acostumado à neve, deve saborear com curiosidade os pratos tupiniquins. Dispensamos consultar economistas para nos orientar sobre como temos que preparar a ceia de um jeito econômico.

Aquela sobra de carne assada da semana passada serve para dar um sabor. Tire os sebos, pois o produto ficou na geladeira e mostra o excesso daquilo que jamais devíamos ingerir. Corte em cubinhos de cerca de meio centímetro. Cuidado com a faca. Pedacinho de pele humana não fica bem.

A salada de tomate de anteontem também serve. Passe uma água corrente e pique bem miudinho. Tomate está muito caro e tem que ser reaproveitado. Veja se sobrou um pedacinho daquele panetone em embalagem de sache. A casca estava queimada e pode ser reaproveitada. Despedace com as mãos mesmo.

Alguma passa sobrando? Se tiver, acrescente. Pimenta bem ardida? Veja lá que o vidrinho está lá embaixo, no último compartimento da geladeira. Azeitona? Vá, gaste um pouco. Tem sache de 200 gramas por um e noventa e nove. Dá para a farofa e ainda sobra para a maionese.

Ingredientes ajeitados, preparo em andamento. Aproveite a frigideira que foi usada para fritar o bife. O caldo que sobra dá um gostinho. Se acabou o bacon apele para o toucinho. Mas passa ele bem pelo fogo até ficar crocante. Misture tudo, mexa e remexa, doure, revire, coloque um pouco de água para aumentar o volume e não desperdice o restinho de feijão.

A primeira impressão é de uma massa esquisita. Mas vamos lá: vá misturando a farinha de mandioca até ficar uma cor clara. Cuidado: muita farinha dá numa farofa seca. Mais um minutinho de mexida e está no ponto. É só esperar assar aquela cabeça de porco e a ceia pode ser servida.

Viram? Nem precisamos contratar economista para planejar o custo da nossa ceia. E ficou bom. A receita dá para a quantidade de pessoas que deixaram sobras nas refeições anteriores. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E encerra-se mais uma temporada esportiva...

Está confirmado. O futebol não é uma caixinha de surpresa! O Mundial de Clubes realizado no Japão mostrou para milhares de torcedores que a bola é redonda para a equipe que a trata com habilidade. O Barcelona soube usar de seu conjunto e fez da pelota uma estrela em campo. Marcou de goleada no Santos.

Ainda assim “somos vencedores”. A tese é do ídolo santista Neymar, repetindo justificativas históricas dos jogadores, técnicos e dirigentes do futebol tupiniquim. E somam-se a estes os comentaristas de plantão: radialistas, profissionais de televisão e jornalistas das editorias de esporte fazem eco: “Somos campeões”.

Nunca perdemos. Mesmo desclassificados, sempre ganhamos. A vitória moral é uma muleta que sustenta, além das pessoas que ganham dinheiro com o futebol brasileiro, uma legião de torcedores. “O Barcelona é campeão, mas mostramos que podemos chegar aqui”. A frase, claro, é de Neymar. A reprodução é arbítrio dos cronistas esportivos.

Trabalhemos a hipótese da equipe brasileira ter saído do Japão como um vencedor de verdade. Não importa se é Santos, São Paulo, Palmeiras, Londrina, Astorga, Bela Vista do Paraíso, Unaí, Assai, Uraí, Nova América da Colina, São Jerônimo da Serra, Sabáudia ou Florestópolis. Vamos, gente, esticar a imaginação e colaborar. Qualquer time vale como exemplo, embora tenhamos percebido nos dias anteriores da final muita gente torcendo contra o representante brasileiro no Mundial de Clubes.

Certo, para amenizar, vamos fazer de conta que o Atlético Paranaense é que perdeu para o Barcelona e não nos consideram fantasiosos ao extremo. Se o desembarque no Brasil fosse com a taçona de primeiro lugar, imaginem como seria a nossa segunda-feira, praticamente uma semana antes do Natal. Estaríamos almoçando, jantando, bebendo e respirando futebol.

E iria, fatalmente, aparecer um comentarista de televisão chorando emocionado, dizendo que participou da campanha vitoriosa. Quantos cronistas esportivos participaram da produção do craque Neymar? Do tipo, eu fiz a primeira entrevista com ele, portanto, faço parte da carreira dele. Como garoto propaganda, infelizmente ele trabalha para marcas que nem a sobriedade de Pelé conseguiria promover. É um chute de canela acertando a canela dos outros.

Então? Isso significa que foi bom ter sido apenas vencedor? Claro que não. Melhor teria sido o representante brasileiro voltar campeão. Mas antes de criticar Neymar por se achar vencedor depois de uma goleada escandalosa, temos que ponderar que a mídia esportiva é que exagera e erra. Às vezes ela proporciona derrotas ao vangloriar fracassos. Haja profissionalismo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

PEC do diploma retorna à pauta só em fevereiro

O jogo é duro! Só no ano que vem a Proposta de Emenda Constitucional (PEC 33/2009), que devolve a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão, retorna à pauta do Senado para a votação em segundo turno.

É bom lembrar que passando pelo Senado a proposta ainda tem um longo percurso a frente. A PEC terá ainda que ser apreciada na Câmara dos Deputados. A aprovação em primeiro turno foi de goleada: 65 senadores votaram sim para a obrigatoriedade do diploma de jornalista e apenas sete foram contra.
A previsão da proposta entrar na pauta é para fevereiro de 2012. Até lá o alerta deve ser mantido: pressões contrárias podem interferir no resultado e há muitos interesses em torno do assunto.

Na Câmara dos Deputados a vigilância deve ser maior. São 513 deputados federais representando todas as unidades da federação. São pressões estaduais sobre estes parlamentares, uma vez que a prática do jornalismo feito por quem não é jornalista está presente e é corriqueira em grande quantidade de jornais médios e pequenos que vivem das barganhas com os políticos.

A preocupação maior é com os registros de pessoas que não tem diploma de jornalismo pelas Delegacias Regionais do Ministério do Trabalho. Estas pessoas terão no mínimo mais meio ano para obterem os seus registros.

É risco de mais desabilitados fazendo um jornalismo que já está chegando ao piso em questão de qualidade e, principalmente, de ética e compromisso social. Não estamos, de forma alguma afirmando que ética e comprometimento estão na cartilha dos diplomados. Aliás, em alguns cursos de comunicação os professores de ética assustam por desconhecerem – ou ignorarem – estes valores fundamentais de um profissional de jornalismo.

O que estamos dizendo é que a concessão de registro profissional pelo Ministério do Trabalho aos não-diplomados abre brechas perigosas e coloca no mercado algumas pessoas que estão para o que der e vier. Jornalistas que colocam uma nota na coluna em troca do cafezinho diário; que paga a nova armação dos óculos com uma matéria; que tem almoço garantido em determinado restaurante numa permuta duvidável.

Isso existe sim. Só não enxerga quem não quer ver. E existe também envolvendo diplomados que obrigatoriamente estudaram ética. Imagina então quem só ouve falar de ética quando ela envolve terceiros?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Capas desta quarta-feira, dia 14 de dezembro

O Estado de S.Paulo puxa a capa com a manchete “Crise encarece crédito para pequenas empresas”. A matéria chamada faz referência aos efeitos da turbulência européia. Na linha fina, algo para preocupar os trabalhadores: “Fiesp alerta sobre risco de demissões”.

Sabemos, mas é bom deixar claro: Fiesp é a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Ou seja, vindo de uma entidade que congrega o setor produtivo do Estado vizinho, temos que considerar que o sinal já passou do amarelo para o vermelho. Assim, a matéria que parece desinteressante para leitores que não são pequenos empresários ganha importância na leitura e acaba importante para todos.

Abaixo da manchete, em duas colunas, uma chamada seca também atrai leitura: “Greve ameaça parar aeroporto no fim de ano”. É preocupação para muitas pessoas que aproveitam os preços promocionais de passagens aéreas para viagens de fim de ano. É bom a mídia, inclusive regional, verificar as passagens de ônibus. Há informações de que algumas linhas já estão esgotadas.

Na Folha de S.Paulo, “Penas do mensalão vão prescrever, diz ministro”. Válido pela abordagem, mas a chamada é de assimilação restrita. A memória costuma ser fraca e tem muita gente que já esqueceu o que é o mensalão. Mais válido ainda pelo alerta, com base no depoimento do ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que disse: as penas para os réus do mensalão vão prescrever antes que o julgamento esteja concluído. O resto da capa é firula e nada acrescenta.

A Folha de Londrina chama com o combate à criminalidade: “Governo lança plano para reduzir homicídios no Estado”. É em cima do anúncio oficial e exige repercussão. Mas segurança é sempre prioridade não somente na ótica dos editores mas principalmente no interesse dos leitores. A Folha também traz chamada seca sobre a proposta do Governo do Paraná de criar 225 novos cargos comissionados no Detran. O tom da matéria é questionador. Isso é importante, pois permite ao leitor a análise dos atos dos homens públicos.

A Gazeta do Povo também chama a edição pela anúncio do pacote para combater a criminalidade no Paraná. Abaixo da manchete, atrai leitura a chamada sobre o recuo do presidente da Assembléia Legislativa de pagar 15º salário aos deputados estaduais.

Eufórica como sempre, a equipe do Jornal de Londrina chega de assessoria de imprensa e anuncia: “Fazenda projeta arrecadação de ITBI 33,5% maior”. E nos chega um exemplar do Fatos do Paraná, um jornal que traz muitas autoridades na capa e em todas as páginas internas. Nada a ser comentado.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

As capas desta terça-feira nos impressos

A manchete mais forte desta terça, dia 13 de dezembro de 2011, é da Gazeta do Povo. A linha acima do título diz: “Legislativo – Presidente da ALEP diz que benefício é legal; custo é de R$ 2,1 mi por ano”. Em seguida, o título: “Deputados estaduais ganham 15 salários por ano no Paraná”.

Consideramos nesta análise os dois principais jornais do Norte do Paraná – Folha de Londrina e Jornal de Londrina – e apenas a Gazeta do Povo de acordo com suposta abrangência estadual.

A matéria do jornal de Curitiba diz respeito ao pagamento, pela Assembléia Legislativa do Paraná, do 14º salário agora em dezembro, antes do início do recesso dos deputados estaduais, e do 15º salário em janeiro, antes do reinício das sessões.

Como somos patrões desses nossos representantes no legislativo paranaense, vamos desembolsar nesses extras R$ 2,1 milhões. O benefício, conforme a matéria também reaproveitado pelo Jornal de Londrina, não está previsto na Constituição Estadual mas é pago por “tradição”. A explicação seria: como o modelo de remuneração dos deputados paranaenses é similar ao do Congresso Nacional, adota-se o pagamento, na cara dura, do benefício a que tem direito os deputados federais e senadores. Isso significa que pagamos também os extras de cerca de 600 parlamentares em Brasília enquanto economizamos o nosso 13º para pagar dívidas e comprar alguns panetones de R$ 3,99.

Folha de Londrina e Jornal de Londrina usam manchetes relacionadas à agropecuária. No primeiro, “Valor de seguro rural pode cair 93%”. Isso chama pouca leitura e para a maioria dos leitores do jornal deve soar como uma notícia fria, com certo interesse por trás. No segundo, “Soja e milho ganham mais 1,6 milhão de hectares”. A princípio, isso interessa a poucos leitores. O Jornal de Londrina traz chamada seca sobre os extras dos deputados estaduais paranaenses. A Folha só emociona com a foto da festa do Papai Noel às crianças que fazem quimioterapia no Hospital Universitário. O resto é seleção precária e tanto faz abrir o jornal para ler a matéria chamada. Melhor passar por cima.

Saindo do Paraná, a manchete de O Estado de S.Paulo diz: “Mercado considera pacto fiscal da EU insuficiente”. E daí? Sob um enfoque econômico mais popular – e não populesco – a matéria e consequentemente a chamada de capa atrairiam alguma curiosidade mesmo em quem não é da área. Mas, quem sabe, esta edição foi feita para especialistas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Há, sim, uma luzinha lá no fim do túnel

Uma boa reportagem salva a edição. Com anos de prática do jornalismo em redações, sabemos que o empenho das equipes é de abastecer os jornais que circulam nos domingos com matérias de peso. Nem sempre, porém, o produto final atende às expectativas. Um pequeno contratempo pode dar num desastre.
E o leitor recebe uma edição grossa na quantidade de páginas e de encartes, mas sem conteúdo. Vai restar para ele a possibilidade de conferir os anúncios: relógios, apartamentos, carros, móveis, eletrodomésticos e nada mais a ser lido.

Os dois principais jornais do Paraná conseguiram, entre o final de semana e a segunda-feira, surpreender. A Folha de Londrina reservou justamente para a segunda-feira, dia 12 de dezembro, a sua produção mais consistente dentro de uma edição que assusta pela finura. As edições de segunda, com dois caderninhos, às vezes são hiláricas. Mas desta vez o jornalista Fábio Galão assina uma produção interessante.

“Região metropolitana, só no papel”. Este é o título. Na linha fina: “Instituída há 13 anos, RML tem integração efetiva travada por falta de planejamento e recursos”. A palavra efetiva cabe, mas é desnecessária. Deve ter sido colocada para fechar o comprimento da linha fina. Mas isso, de forma algum, interfere na produção.

É um tapa na cara dos políticos paranaenses, principalmente os que representam a Região Metropolitana de Londrina. O tom da matéria não é este, mas a cobrança está clara, curta e grossa. Vereadores, prefeitos, entidades municipalistas, deputados estaduais, secretários de Estado, governador, deputados federais, senadores, ministros e mais que surjam estão neste rolo.

Acostumados a fazer da vida pública uma guerrilha partidária visando sempre as próximas eleições, estes esqueçam de trabalhar planejamento para a região que representam. Os mesmos vícios impedem estes políticos de enxergarem os seus papéis como projetistas do desenvolvimento. Ou, se enxergam, preferem andar para trás e levar com eles inadvertidos eleitores acostumados a práticas ultrapassadas de relacionamento com o poder.

Por isso, se a produção não teve a intenção de cutucar os homens que travam o desenvolvimento, indiretamente o resultado publicado foi isso. Mas, convenhamos, o objetivo deve ter sido este mesmo e valeu. É uma reportagem que, a princípio, parece interessar a poucos. Mas diz respeito a todos. Vale ser lida.

A Gazeta do Povo também surpreendeu com a publicação do resultado da pesquisa sobre o que a população acha dos vereadores. O título da matéria, na p[gina 15, Vida Pública, edição de domingo, 11 de dezembro, é: “Paraná desaprova vereadores”. Na linha fina: “Pesquisa revela que 66% dos paranaenses estão insatisfeitos com o trabalho dos parlamentares municipais e que não se sentem representados por eles”.

O mais importante da produção é que ela retrata fielmente o sentimento do eleitor em relação aos vereadores, que passaram a ser protagonistas de brigas e escândalos e autores de projetinhos, requerimentos e indicações simplistas: nome de rua, fumódromo, título de cidadão honorário e briga. Nada mais.

E na edição de segunda-feira, 12 de dezembro, página 17, Economia, a manchete da Gazeta é: “Mercado só gera emprego que paga até dois salários”. Na linha fina: “Número de vagas com carteira assinada cresce desde 2000, mas de forma desigual. Em postos mais bem remunerados, demissões superam as contratações”.

Também verdade. Verdade, aliás, que vai contra outras reportagens, inclusive algumas produzidas pelo mesmo jornal, que reproduzem sem questionar dados oficiais. E nestes, sempre se fala do aumento das vagas de emprego e da queda do desemprego. Mas com uma visão unilateral que causa muita revolta em quem está desempregado.

A matéria é assinada por Fernando Jasper. Rosana Félix assina a reportagem sobre os vereadores desacreditados. Estas três produções dão uma leve esperança: há luz no fim do túnel em relação ao bom jornalismo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Capítulos finais do Código de Ética do Jornalista

Os dois capítulos finais do Código de Ética do Jornalista Brasileiro estão na atual postagem. Lembramos que a versão apresentada foi atualizada em 2007, em Vitória, pela Federação Nacional dos Jornalistas.

Capítulo IV - Das relações profissionais

Art. 13. A cláusula de consciência é um direito do jornalista, podendo o profissional se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios deste Código de Ética ou que agridam as suas convicções.


Parágrafo único. Esta disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para que o jornalista deixe de ouvir pessoas com opiniões divergentes das suas.


Art. 14. O jornalista não deve:


I - acumular funções jornalísticas ou obrigar outro profissional a fazê-lo, quando isso implicar substituição ou supressão de cargos na mesma empresa. Quando, por razões justificadas, vier a exercer mais de uma função na mesma empresa, o jornalista deve receber a remuneração correspondente ao trabalho extra;


II - ameaçar, intimidar ou praticar assédio moral e/ou sexual contra outro profissional, devendo denunciar tais práticas à comissão de ética competente;


III - criar empecilho à legítima e democrática organização da categoria.

Capítulo V - Da aplicação do Código de Ética e disposições finais

Art. 15. As transgressões ao presente Código de Ética serão apuradas, apreciadas e julgadas pelas comissões de ética dos sindicatos e, em segunda instância, pela Comissão Nacional de Ética.


§ 1º As referidas comissões serão constituídas por cinco membros.


§ 2º As comissões de ética são órgãos independentes, eleitas por voto direto, secreto e universal dos jornalistas. Serão escolhidas junto com as direções dos sindicatos e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), respectivamente. Terão mandatos coincidentes, porém serão votadas em processo separado e não possuirão vínculo com os cargos daquelas diretorias.


§ 3º A Comissão Nacional de Ética será responsável pela elaboração de seu regimento interno e, ouvidos os sindicatos, do regimento interno das comissões de ética dos sindicatos.


Art. 16. Compete à Comissão Nacional de Ética:


I - julgar, em segunda e última instância, os recursos contra decisões de competência das comissões de ética dos sindicatos;


II - tomar iniciativa referente a questões de âmbito nacional que firam a ética jornalística;


III - fazer denúncias públicas sobre casos de desrespeito aos princípios deste Código;


IV - receber representação de competência da primeira instância quando ali houver incompatibilidade ou impedimento legal e em casos especiais definidos no Regimento Interno;


V - processar e julgar, originariamente, denúncias de transgressão ao Código de Ética cometidas por jornalistas integrantes da diretoria e do Conselho Fiscal da Fenaj, da Comissão Nacional de Ética e das comissões de ética dos sindicatos;


VI - recomendar à diretoria da Fenaj o encaminhamento ao Ministério Público dos casos em que a violação ao Código de Ética também possa configurar crime, contravenção ou dano à categoria ou à coletividade.


Art. 17. Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.


Parágrafo único - Os não-filiados aos sindicatos de jornalistas estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, impedimento temporário e impedimento definitivo de ingresso no quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.


Art. 18. O exercício da representação de modo abusivo, temerário, de má-fé, com notória intenção de prejudicar o representado, sujeita o autor à advertência pública e às punições previstas neste Código, sem prejuízo da remessa do caso ao Ministério Público.


Art. 19. Qualquer modificação neste Código só poderá ser feita em congresso nacional de jornalistas mediante proposta subscrita por, no mínimo, dez delegações representantes de sindicatos de jornalistas.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mais um capítulo do nosso Código de Ética

Nesta postagem, o Capítulo III do Código de Ética do Jornalista Brasileiro, versão atualizada em 2007, que trata da responsabilidade profissional do jornalista:

Art. 8º O jornalista é responsável por toda a informação que divulga, desde que seu trabalho não tenha sido alterado por terceiros, caso em que a responsabilidade pela alteração será de seu autor.

Art 9º A presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.

Art. 10. A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade.

Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações:

I - visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica;

II - de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes;

III - obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração;

Art. 12. O jornalista deve:

I - ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas;

II - buscar provas que fundamentem as informações de interesse público;

III - tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar;

IV - informar claramente à sociedade quando suas matérias tiverem caráter publicitário ou decorrerem de patrocínios ou promoções;

V - rejeitar alterações nas imagens captadas que deturpem a realidade, sempre informando ao público o eventual uso de recursos de fotomontagem, edição de imagem, reconstituição de áudio ou quaisquer outras manipulações;

VI - promover a retificação das informações que se revelem falsas ou inexatas e defender o direito de resposta às pessoas ou organizações envolvidas ou mencionadas em matérias de sua autoria ou por cuja publicação foi o responsável;

VII - defender a soberania nacional em seus aspectos político, econômico, social e cultural;

VIII - preservar a língua e a cultura do Brasil, respeitando a diversidade e as identidades culturais;

IX - manter relações de respeito e solidariedade no ambiente de trabalho;

X - prestar solidariedade aos colegas que sofrem perseguição ou agressão em conseqüência de sua atividade profissional.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O nosso Código de Ética - Capítulo II

Na postagem de hoje, o Capítulo II do Código de Ética do Jornalista Brasileira, versão atualizada em 2007 – Trata da conduta profissional do jornalista:

Art. 3º O exercício da profissão de jornalista é uma atividade de natureza social, estando sempre subordinado ao presente Código de Ética.

Art. 4º O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação.

Art. 5º É direito do jornalista resguardar o sigilo da fonte.

Art. 6º É dever do jornalista:

I - opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;
II - divulgar os fatos e as informações de interesse público;
III - lutar pela liberdade de pensamento e de expressão;
IV - defender o livre exercício da profissão;
V - valorizar, honrar e dignificar a profissão;
VI - não colocar em risco a integridade das fontes e dos profissionais com quem trabalha;
VII - combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação;
VIII - respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;
IX - respeitar o direito autoral e intelectual do jornalista em todas as suas formas;
X - defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito;
XI - defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias;
XII - respeitar as entidades representativas e democráticas da categoria;
XIII - denunciar as práticas de assédio moral no trabalho às autoridades e, quando for o caso, à comissão de ética competente;
XIV - combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza.

Art. 7º O jornalista não pode:

I - aceitar ou oferecer trabalho remunerado em desacordo com o piso salarial, a carga horária legal ou tabela fixada por sua entidade de classe, nem contribuir ativa ou passivamente para a precarização das condições de trabalho;
II - submeter-se a diretrizes contrárias à precisa apuração dos acontecimentos e à correta divulgação da informação;
III - impedir a manifestação de opiniões divergentes ou o livre debate de idéias;
IV - expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais;
V - usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;
VI - realizar cobertura jornalística para o meio de comunicação em que trabalha sobre organizações públicas, privadas ou não-governamentais, da qual seja assessor, empregado, prestador de serviço ou proprietário, nem utilizar o referido veículo para defender os interesses dessas instituições ou de autoridades a elas relacionadas;
VII - permitir o exercício da profissão por pessoas não-habilitadas;
VIII - assumir a responsabilidade por publicações, imagens e textos de cuja produção não tenha participado;
IX - valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Vamos reler juntos o nosso Código de Ética

Postamos nesta data (6 de dezembro de 2011) no blog das Mulheres Batalhadoras (http://batalhadoras.blogspot.com) o preâmbulo e o Artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que no dia 10 completa 63 de adoção e promulgação pela Assembléia Geral das Nações Unidas. O objetivo desse tipo de postagem é de juntos fazermos a releitura diária, artigo por artigo, de um documento tão importante.
Adotamos para este blog do Fórum de Jornalismo o mesmo objetivo, mas com a transcrição, parte por parte, do texto atualizado em 2007 do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Começamos com o
Capítulo I – Do direito à informação, e seguimos nas próximas postagens com todo o conteúdo:
Art. 1º O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange o seu direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação.
Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I - a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica - se pública, estatal ou privada - e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II - a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público;
III - a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
IV - a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não-governamentais, é uma obrigação social.
V - a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante.